Sala de imprensa

O filme

Documentário sobre a tensão entre tradição e inovação nas comunidades do candomblé brasileiro, em meio à crescente troca em âmbito global de saberes e ritos da religião dos orixás por sacerdotes de diferentes países. O filme tem como objeto central algumas das iniciativas recentes de recuperação do lendário culto do oráculo sagrado de Ifá, que havia se perdido no candomblé do Brasil mas sobrevivido principalmente na Nigéria e na santeria de Cuba. Duração de 16 minutos.


A produção

“iCandomblé” começou a ser imaginado em 2003 por João Velho, motivado pela sua experiência de vários anos de iniciado no Candomblé e pelo convívio com a comunidade de sua casa de santo, o Ilê Axé Omo Alaketu, à época sediado em Imbariê, distrito do município de Duque de Caxias, às margens da Estrada Rio-Teresópolis, no Rio de Janeiro, comandada por Carlos Alberto Assef.

icandomble_web_11A produção executiva do projeto foi abraçada por Rico Cavalcanti em 2005, então sócio da produtora Plural Filmes junto com Marcia Paraiso e Ralf Tambke. Rico e João foram colegas de faculdade de cinema na UFF nos anos 1980, e esse projeto marcou a retomada de uma velha amizade e o início de uma parceria artística e profissional que segue firme até os dias de hoje.

A pesquisa do filme foi reforçada pelo registro de várias horas de depoimentos de sacerdotes participantes do IX Congresso Internacional de Tradição e Cultura Ioruba, ocorrido no Brasil em julho de 2005, nas dependências da UERJ, no Rio de Janeiro. O destaque foi a entrevista com o babalawo e escritor nigeriano Wande Abimbola, que acabou sendo utilizada na parte final de iCandomblé. Grande parte desse riquíssimo material ainda está inédito.

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Cerimonia de abertura do congresso.

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Babalawo Wande Abimbola

Nessa fase do projeto, inclusive durante o trabalho no congresso, foi muito importante a colaboração de Maria Pimpa Junqueira, que participou de todas as entrevistas, funcionando como tradutora e consultora. Também foi de muita valia a colaboração de Gilberto Ferreira (Ogã Gilberto de Exu), que contribuiu facilitando os acertos com a organização do congresso e apresentando participantes à equipe do filme. Fernanda Oliveira produziu as gravações das entrevistas junto com Rico Cavalcanti, que foram registradas com duas câmeras por Anderson Capuano e Bruno Prada.

Mais amadurecido e encorpado pela experiência no congresso Orisa World, o projeto de realização do curta foi aprovado em edital do programa Petrobras Cultural em 2006 numa disputa com centenas de propostas, e ganhou a verba necessária para a sua realização. Após a inscrição na lei de incentivo, o contrato com a Petrobras foi assinado, e em 2007 a produção começou a ser preparada.

icandomble_web_04Por motivos diversos, sobretudo para compatibilizar agendas da equipe, das pessoas e eventos que seriam registrados, as filmagens foram sendo feitas aos poucos entre 2007 e 2009. A pequena e minimalista equipe, que de tempos em tempos se reunia para as gravações, incluiu Anderson Capuano, num de seus primeiros trabalhos como diretor de fotografia, e Rafael Eiras, como assistente de câmera e técnico de som direto. Tudo foi captado em vídeo digital full HD em 24 quadros por segundo.

Todas as gravações foram realizadas no Estado do Rio de Janeiro, com particular destaque para o registro de uma festa de Oxum ocorrida em 2009 no terreiro de Mãe Marcia de Oxum, que gentilmente permitiu as filmagens sem nenhum tipo de restrição. Desse registro, saíram as belas imagens dos rituais de Candomblé e danças de orixás captadas por Capuano que aparecem no final do filme.icandomble_web_14

A edição do filme ficou por conta do próprio diretor, João Velho, e transcorreu durante o segundo semestre de 2009. O trabalho foi exaustivo devido à grande quantidade de material gravado, uma vez que foram registrados pressupondo a possibilidade de formatos de maior duração para o futuro. Para compor a trilha original, foi chamado o músico Marcos Suzano, que a construiu em inúmeras camadas de performances em instrumentos acústicos de percussão e sons de sintetizador.

A etapa de finalização de som e imagem foi feita no Estudio MEGA de São Paulo no início de 2010, com a mixagem 5.1 da trilha sonora musical feita pelo engenheiro de som Guilherme Reis, a edição de som e mixagem final, o color grading e a transferência para película 35mm.

icandomble_web_21icandomble_web_23O filme ficou pronto no início de 2010, e logo suscitou o convite por parte do curador Alberto Saraiva para a montagem de uma exposição de videoarte no Oi Futuro-Flamengo, concomitante com a sua apresentação de estréia para convidados. O filme foi exibido pela primeira vez em 08 de junho de 2010 e a exposição iCandomblé, que contou com imagens do filme, acabou ocupando as salas do primeiro andar do Oi Futuro por mais de 2 meses. A video-instalação contou com 6 projeções simultâneas mesclando sonoridades de atabaques e ruídos de práticas de adivinhação, além de 3 monitores de TV com edições especiais de vários trechos das entrevistas registradas durante o congresso Orisa World de 2005 que você pode assistir com exclusividade nessa mesma página do site, logo abaixo.

Infelizmente, talvez por ter sido identificado como um filme de nicho, o curta-metragem iCandomblé pouco circulou pelos festivais brasileiros, tendo participado com mais destaque da 15ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico em 2011, no Rio de Janeiro, e da 9ª Mostra de Cinema Olhares Sobre o Sagrado, em 2013, em São Paulo. O curta também foi exibido em Portugal em mostras não-competitivas nos festivais Faial Filmes Fest e Fike, ambos em 2011.icandomble_web_12

Agora, com sua chegada à web com livre acesso a qualquer visitante do site, o filme tem tudo para encontrar seu público e contribuir para promover o necessário debate democrático sobre o seu tema, que continua cada vez mais atual.

Ainda há muito material inédito produzido para o filme, várias horas de depoimento não aproveitadas, imagens de rituais e cerimônias religiosas. O projeto iCandomblé continua em produção visando novos formatos e com novas filmagens, inclusive fora do Brasil.


 

O motor temático do filme – o resgate de Ifá

Essencialmente, o filme procura mostrar a experiência de sacerdotes do candomblé que tentam recuperar o milenar culto do oráculo de Ifá, um sistema de adivinhação bastante complexo que se perdeu aqui mas sobreviveu na Nigéria e em Cuba.

icandomble_web_30O Ifá é praticado pelos chamados babalawos, um cargo fora da hierarquia do Candomblé. Para buscar Ifá e se iniciar como babalawo, muitos brasileiros viajam para o exterior ou recorrem aos sacerdotes cubanos e nigerianos radicados no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.

E assim, dessa livre circulação mundial de informações, sacerdotes, rituais e axé, começa a surgir uma espécie de candomblé globalizado, com a incorporação do culto de Ifá e da figura do babalawo, em contraponto ao modelo baiano do candomblé tradicional centralizado na mãe ou pai de santo.

O contato com o “outro” nessas tentativas recentes de reafricanização ou cubanização através da recuperação de Ifá ajuda o candomblé brasileiro a se revitalizar ou pode contribuir para a sua diluição e perda de identidade?

Essa é a grande questão de que o filme trata, mas sem a pretensão de encontrar uma única resposta para ela, até porque, certamente, ela é múltipla e complexa.

 


 

Os principais “personagens” do filme iCandomblé

De um lado, o filme mostra sacerdotes brasileiros e estrangeiros que, na época, vivenciavam diretamente o tema do filme: a troca globalizada de saberes e ritos no contexto da religião dos orixás. De outro lado, falam quatro estudiosos do religião e da cultura afro-brasileira, todos também iniciados no Candomblé, que procuram fazer reflexões sobre esse fenômeno da recuperação recente do culto de Ifá no Brasil.

Os destaques, entre os personagens do filme envolvidos com o tema da globalização do Candomblé, são:

Rafael Zamora Dias

icandomble_web_20Babalawo cubano que primeiro se estabeleceu no Brasil depois da abertura política, por volta do início da década de 1990. Em Cuba trabalhava como operador de câmera da TV estatal. Casou-se com uma jornalista brasileira e passou a morar no Rio de janeiro, numa casa do Cosme Velho, onde fazia seus atendimentos e obrigações religiosas. Tempos depois, também criou um espaço fora da cidade para ritos e iniciações mais complexos. Figura controvertida e polêmica, hábil e sedutor, atraiu a atenção da mídia em muitos momentos. Em que pese Zamora não ter sido bem visto por muitas comunidades do Candomblé, mas não há como negar que ele foi responsável pelo mais forte fenômeno de disseminação do culto de Ifá no Brasil até recentemente. Possivelmente, a partir dele e seus afilhados diretos, hoje deve haver bem mais de 100 babalaôs no Rio de Janeiro. No filme, Rafael Zamora representa o vetor cubano de globalização do Candomblé. Em 1º de fevereiro de 2011, Rafael Zamora Díaz morreu assassinado a tiros quando chegava em sua residência, em circunstâncias misteriosas. Na época, houve rumores de que sua morte teria sido um crime passional. iCandomblé é um dos poucos registros de Zamora, suas opiniões e sua prática religiosa.

 

Claudio Bastos

icandomble_web_17Babalawo carioca iniciado por Rafael Zamora no Brasil. Claudio faz o perfil do típico afilhado de Zamora, alguém que vem do ambiente do candomblé (sua esposa é iniciada), e que considera ter encontrado no modo cubano uma maneira mais interessante para si próprio de praticar a religião dos orixás.

 

 

 

Willer de Almeida

icandomble_web_36Advogado carioca, professor de inglês, tradutor e empresário. Iniciado como yawo no Candomblé, morou no EUA por vários anos, e se iniciou na Nigéria por duas vezes, como Oluwo Olori Obatala (sacerdócio de Obatalá) e como babalawo. Fundou uma casa de santo em Magé, no Rio de Janeiro, segundo preceitos que aprendeu na Nigéria, que mantém até os dias de hoje.

 

 

Rafael Assef

icandomble_web_19Ogã da casa de santo Ile Ase Omo Alaketu, foi iniciado como babalawo em Osogbo, na Nigéria, em 2002, com a intermediação de Oyekunle Otunde, um amigo seu nigeriano à epoca radicado no Rio de Janeiro. Rafael é filho de João Assef, ogã mais antigo do Ile Ase Omo Alaketu e um dos primeiros brasileiros iniciados como babalawo em Cuba, através de Rafael Zamora. Na época do filme, Rafael Assef era seguidor e fazia parte da comunidade fundada por Willer de Almeida em Magé.

 

Marcia Dória Pereira (Mãe Marcia D’Oxum)

icandomble_web_15Ialorixá do terreiro Egbê Ilê Iya Omidaye Ase Obalayo, localizado no município de São Gonçalo, RJ, e que segue com rigor os costumes do candomblé baiano tradicional. Mãe Márcia foi iniciada em 1968 no terreiro do Gantois, na Bahia, por Mãe Menininha. Ativista contra o racismo, o preconceito, e a intolerância religiosa, Mãe Márcia tem um histórico de lutas nos campos político e cultural pela preservação e valorização das matrizes africanas, e desenvolve trabalhos sociais com crianças, jovens e adultos a partir da sua comunidade. Seu marido, também sacerdote do seu terreiro, viajou muitas vezes à Nigéria, mas ele e Mãe Marcia praticam e defendem o candomblé tradicional que aprendeu na Bahia.

 

Os estudiosos da religiões e culturas afro-brasileiras que participam do filme são:

José Flávio Pessoa de Barros

icandomble_web_18Advogado, antropólogo, professor doutor, escritor e babalorixá brasileiro, radicado no Rio de Janeiro. Professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, escreveu diversos livros sobre a religiosidade de matriz africana. Foi iniciado por Mãe Nitinha de Oxum quando era moço, descendendo, portanto, da Casa Branca do Engenho Velho, na Bahia. Por 15 anos conduziu seu próprio terreiro, Ilê Axé Omin Iwyn Odara, construído na beira de um rio em Cachoeiras de Macacu, no Rio de Janeiro, com a ajuda de sua esposa Lucinha Pessoa. Especialista em Antropologia das Religiões, Religiões Afro-Brasileiras, Etnobotânica, José Flávio teve uma importante contribuição na área de estudos sobre as folhas usadas nos rituais do candomblé. Faleceu de por problemas de coração em maio de 2011.

 

Muniz Sodré

icandomble_web_10Jornalista, sociólogo, e tradutor, nascido na Bahia e radicado no Rio de Janeiro, professor doutor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e pesquisador no campo da comunicação e do jornalismo. Autor de dezenas de livros e centenas de artigos, Muniz Sodré também tem vivência iniciática e vínculos com o candomblé da Bahia, além de manter linhas de pesquisa e publicações no campo da cultura afro-brasileira.

 

Stefania Capone

icandomble_web_16Antropóloga, professora doutora e escritora, nascida na Itália e radicada na França. Viveu durante 12 anos no Brasil onde conheceu o candomblé, que tomou como objeto de estudo, acabando por se especializar no estudo da trasnacionalização das religiões afro-americanas, com pesquisas envolvendo os EUA, Cuba, Brasil e Nigéria e outros países. Autora de vários livros sobre a experiência do candomblé brasileiro e outros fenômenos de religiosidade africana na diáspora.

 


 

Depoimentos da equipe do filme:

João Velho – Diretor e Editor

joaoiCandomblé é um rio por onde transito desde 2003, que me levou a trabalhar com uma equipe maravilhosa, conhecer pessoas inesquecíveis e aprender muito. Eu sinto que ele ainda tem muita agua por navegar, porque, envolto em história e magia, seu tema insiste em não se esgotar. E eu espero ser capaz de seguir por onde esse rio ainda possa me levar. O lançamento do filme no formato de curta-metragem na web é mais uma etapa do curso dessas águas.

 

 

 

Rico Cavalcanti – Produtor Executivo

RicoProduzir iCandomblé trouxe para mim duas experiências de um novo olhar. Em primeiro lugar, me aproximar, e me livrar de pré conceitos, com essa religião ancestral que envolve o culto aos Orixás; em segundo lugar, me apresentar uma parte uma parte específica desse universo que é o culto ao Ifá. Só há o que agradecer por ambas oportunidades. No final, um trabalho do qual posso me orgulhar de ter colaborado. Axé o!

 

 

 

Anderson Capuano – Diretor de Fotografia

Capuano_01iCandomblé me trouxe vários desafios, dentre eles, o processo de descoberta da abordagem, na tentativa de trazer uma visão mais interna e menos observacional. As facilidades e dificuldades que tivemos durante o processo somou para minha experiência profissional. Me impondo limites, exigindo estudo e proporcionando conhecimento.

 

 

 

Marcos Suzano – Compositor da Trilha Sonora Original

SuzanoiCandomblé ampliou meus conhecimentos sobre o assunto. Passei a entender melhor a vivência daquele que se dedica ao candomblé, e também os anseios daqueles que consideram insuficiente a vida no plano tradicional que vivemos. Sem esquecer do fato que fazer a música foi um enorme prazer…

 

 

 

 

Rafael Eiras – Técnico de Som Direto

RafaelParticipar do icandomble foi uma experiência importante, por poder entender um pouco mais da cultura dos orixás. Não só sobre uma perspectiva cultural, mas também entender um pouco mais da filosofia desta religiosidade e de como ela ganha novas perspectivas com a interatividade da internet e as novas tecnologias.

 

 

 

 

 

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A equipe minimalista de iCandomblé


 

Extra – conteúdo exclusivo do site

Assista abaixo os vídeos exibidos na video-instalação iCandomblé, com depoimentos exclusivos de sacerdotes do culto aos orixás de vários países, colhidos durante o IX Congresso Internacional de Tradição e Cultura Ioruba, ocorrido no Brasil em julho de 2005. Passados dez anos, o material continua incrivelmente atual.


 

Ficha técnica

Equipe

Direção, pesquisa e montagem – João Velho
Produção e assistência de direção – Rico Cavalcanti
Fotografia – Anderson Capuano
Som – Rafael Eiras
Trilha Sonora Original – Marcos Suzano

Depoimentos

Claudio Ferreira Bastos
José Flavio Pessoa de Barros
Leonardo Fernandes Albuquerque
Márcia Dória Pereira
Maria Aparecida Homem Junqueira de Mello
Muniz Sodré
Rafael Assef
Rafael Zamora
Stefania Capone
Willer de Almeida

Agradecimentos

Arthur Rodrigues, Bruno Prada, Dinéa Palma, Fernanda Oliveira, Isabel De Luca, Ivana Soutto, Lucinha Pessoa, Mariana Crochemore

Assessoria de finalização – Hugo Gurgel

Estudio de som e imagem – Estudio Mega – SP

Correção de cor – Rogério Moraes
Online – Israel do Monte
Mixagem 5.1 da trilha sonora original – Guilherme Reis
Edição de som e mixagem – Rodrigo Ferrante

Laboratório – MEGACOLOR

Mídias – Casa do filme

Transporte – LANATOURS

Cópias – Kodak Vision

Apoio cultural – Estúdio Mega e Megacolor
Copyright © 2010 João Velho – Todos os direitos reservados

Este filme não pode ser distribuido no todo ou em parte sem prévia autorização. Qualquer exibição fora do âmbito doméstico ou acadêmico, especialmente com fins comerciais, também requer prévia autorização.

iCandomblé é dedicado à memória de Carlos Alberto Assef e João Assef, respectivamente babalorixá e padrinho de Ifá de João Velho, e o site do filme é carinhosamente dedicado à memória dos queridos amigos José Flávio Pessoa de Barros e Maria Pimpa Junqueira, a quem faço uma homenagem especial.